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25.3.09

quatro registos de um verão mental

1

A LIBÉLULA

No charco da memória,
aí, onde se dá a metamorfose das palavras
e o sedimento dos dias se acumula,
aí - e só aí - a solidão é fértil
e o grito atinge as nebulosas.

O torpor da libélula,
que desova num junco,
torna menos efémero o fluir do tempo
e bem mais íntima e secreta a presença da água
na construção da metáfora
e nos olhos do poema.

2

A CARPA

A astuta carpa lentamente nada,
desenhando na vasa a geratriz do silêncio.
Ela antecipa-se às estrelas e prepara a Noite
para o sonoro e prolongado êxtase
da cópula das rãs.

Ejaculada no espaço sideral,
a Via-Láctea inunda de prazer
as mucosas genitais da intemporalidade,
enquanto a carpa astuta lentamente nada.



3

O SALGUEIRO - CHORÃO

Fototropismo, sim, mas quanto baste !
E tal como Jacob contra o Anjo
o salgueiro - chorão resiste ao sol do meio-dia
para que a água o deixe acariciar-lhe a cútis
e as aves vão beber na ponta dos seus dedos.


4

O FENO

É no odor do feno,
quando o sol arde, louco de ciúme,
que o nosso amor se assume
autêntico e pleno.

E, deste Estio quente,
só isso e o feno ficam no cérebro da gente.

6.3.09

encenação para a morte dum poeta



ENCENAÇÃO PARA A MORTE DUM POETA


Alguém desceu pela lingueta de pedra até ao rio,
transportando uma angústia feita corda
com uma das pontas amarrada ao paredão
e a outra à volta do pescoço.

Deitou-se depois no fundo dum caíque, abriu as pernas
e, encalhando os tornozelos nas forquilhas dos remos,
aí ficou com os pés agrilhoados.

Seguidamente pôs-se a roer, até ao ponto de ruptura,
a outra corda ( a que prendia o barco à margem ).


E, muito antes de a noite se esvaziar de todo
pelo esgoto aberto das pupilas dilatadas,
o rio, em maré viva e na vazante, fez o resto.

4.3.09

tragédia ao sol posto

SONHO REQUENTADO


Enquanto o Sol, ébrio de desejo, se desenvencilha da Luz,
hipotecando ao Tempo a sua própria parte de Infinito,
a Noite despe a túnica e fica em vão à espera
da prometida metamorfose eternamente adiada.

A única referência para o debuxo do poema é o coaxar das rãs
no charco onde, por reflexão, se precipitam os astros
e, por sadismo, se afogam os poetas.

As aves não dormem, simplesmente esperam,
tal como a Noite,
que o mesmo Sol as transforme em voos de pura claridade
e em gorjeios matinais eficazmente obscenos.

E porque as palavras não cabem no silêncio estelar,
renuncio à minha própria parte de Infinito
e concedo-lhes espaço nos meus versos.

23.2.09

ecologia de cordel

ACIDENTE ECOLÓGICO

O poeta urbano caiu abaixo dum carvalho
onde fazia de pássaro.

Por mera coincidência,
caiu também a noite
em cuja escuridão
( roçando o falo hirto pelo abstracto das formas )
fica o poeta, angustiado, esperando a madrugada,
a fim de a amar e de fazer-lhe um filho.

Quando ela chega, porém, ofegante de cio,
com a luminosa flor dos lábios entreaberta
e o sexo em súplica,
já o poeta dorme, exaurido e impotente,
e o sémen apodrece sob as tílias do parque.

15.2.09

relação insólita


Quando, enroscado na mente,
em noite de vigília,
o enigmático silêncio das estrelas adormece
como um gato feliz no colo do seu dono,
é absurdo pensar
na dimensão exacta do infinito,
mas não o é senti-la.

12.2.09

elogio da noite


A substância da Noite é de uma disponibilidade exemplar,
pois nela todas as geometrias são exactas,
fecundas todas as teorias,
e nenhum sonho é estéril.


Com ou sem os adereços habituais,
vestida de estrelas e de luar
ou simplesmente nua sob a chuva e ao vento,
a Noite é bela porque é nocturna e feminina,
independentemente da sombra que a habita
e do sexo que esconde nas fendas abissais dos oceanos
repartido em múltiplos libidos insaciáveis.


A Noite é bela se nocturno for
o desejo de quem a quer sentir inteira no seu corpo.

29.12.08

morte em miami de um irlandês imigrado


Dos livros lidos e adornados a bombordo, aparto,
ora um, que trata de orquídeas e begónias,
depois outro, que ensina tudo sobre o ágio.


Alastram manchas no tecto branco e azul do quarto
onde, proscrito, exorcizo insónias:
É a Morte que mija no estuque o seu presságio.


Depois, irreversível, a osmose principia,
até que a pele estala e dentro do espelho da cómoda barata,
trazida da velha Irlanda e conservada na memória,
a alma se refracta
e aceita diluir-se para sempre na nova trajectória.