JARDIM REPOVOADO
Neste domingo sem Sol, em que vieste e choveu
inesperadamente sobre os pássaros e no violino do cego,
o jardim público, onde as crianças, há pouco, eram o mais importante,
surgiu-me decadente como um império nascido
da ambição de uns tantos,
do heroísmo ocasional de alguns
e da escravidão dos outros.
As cascas dos tremoços, cuspidas por bocas insuspeitas
e por outras prostituídas,
aumentavam o lixo metafísico das minhas recordações inventadas.
Sim, porque inventar recordações
é um honesto entretenimento dos deuses
e um trágico destino dos poetas
e de todos os que sonham aos domingos, quando há Sol,
e depois chegas tu, realidade absurda e tolerada,
e choves, sem nos molhares,
deixando-nos encharcados de pegajosa melancolia -
- esse humilhante lacre com que o tempo torna invioláveis
os segredos das coisas.
O lago, a estátua, a simetria estúpida dos canteiros;
as ruas de saibro cilindrado e de traçado tão diferente
das rotas dos astros;
essa gruta com falsas estalactites de cimento,
mais o polícia com que a moral adorna os parques públicos -
- tudo o que jaz no jardim e saiu de cabeças humanas,
deixando-as aliviadas e porventura felizes
( as cabeças respeitáveis dos senhores vereadores,
do senhor arquitecto paisagista,
do senhor escultor de bustos encomendados e, por isso, difíceis ) -
- tudo isso pretende agora instalar-se de qualquer jeito
na minha memória
( sem ter lugar marcado,
como num transporte colectivo já repleto ),
ante a minha obstinada, peremptória e vã recusa.
É meu desejo, porém, levar comigo,
para o depois de amanhã da véspera da minha morte apenas as coisas do parque que não sairam de cabeça nenhuma
( e caibam na minha ),
ordenadas embora como quesitos de um agravo sem alçada possível:
1º - As flores hermafroditas, e só essas,
porque as outras sabem bem o que é amar.
2º - Os peixes degredados no lago artificial,
essa estranha e inútil infra-estrutura das paisagens urbanas
incipientemente retocadas por mãos que se goraram no espanto.
3º - As árvores defraudadas na liberdade do seu fototropismo
por podas perversas.
4º - O cego, mas sem o violino,
uma vez que as cordas deste não podem substituir-lhe os nervos ópticos.
5º - Os namorados, tão inocentes afinal nas suas malícias telecomandadas.
6º - As crianças, que mais tarde darão conta de que alguém as abandonou,
à porta do Universo,
com um jogo de cueiros, sem quaisquer iniciais bordadas,
e sem chapa de identificação ao pescoço (falta esta que bem pode vir a ser suprida com a corda que hoje saltam ).
7º - A velha e miserável vendedora de tremoços,
que nunca ouviu falar de metafísica
( e não precisa disso para nada
porque ela própria a encarna,
quando o seu lutar pela vida não se parece com o dos bichos
e apenas resulta do seu consciente medo de morrer ).
Quem de direito dirá, depois, se é preciso autenticar estes quesitos
e reconhecerem-me a assinatura.
De qualquer modo, informo, desde já,
que tenho sinais abertos em vários cartórios oficiais:
Para lá da sarça, onde Deus se escondeu para falar a Moisés;
no magma, onde o Diabo sustenta o seu harém;
nas areias das praias solitárias
onde somente a erosão é a lasciva e venal testemunha do Tempo,
e na terceira circunvolução esquerda do meu cérebro.
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27.2.09
1.2.09
panfleto
os deuses decidiram-se pela opção errada.
Exulto, pois, de alegria triunfante,
quando, das virilhas mornas de um parêntesis
e do emaranhado crespo das palavras,
irrompem, em ostensiva oblata,
os órgãos sexuais do poema.
palpitantes de um cio exacerbado
( até ao grau infinitesimal )
pelo perfume afrodisíaco das tílias
que o Estio macera nas entranhas líquidas da Noite.
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o cerco do sol
31.1.09
artifícios do desejo
te sentaste na relva e ergueste as ogivas dos joelhos,
unindo-os num abraço,
para neles pousares, sobre uma face, o rosto,
aconteceu no parque o último dos poentes.
Arrevesado e indecifrável foi então, no bronze verde,
o linguajar dos pássaros com cio.
Tema:
o cerco do sol
21.1.09
puzzle irresolúvel
espalhados à sorte
num limpo céu nocturno,
tento reconstruir o espelho todo e, outrossim,
achar quem de novo e inteiro me transporte
aos carnavais de Saturno.
E afinal num único pedaço
cabem as mesmíssimas estrelas
que se reflectiam no espelho todo.
( E se não mudo, quando em cacos me desfaço,
por quê olhá-las e querer compreendê-las ? )
E porque não adormeço, afinal, e me acomodo
se o Cosmos está codificado algures em mim
e vai continuar aí – tal como está – e muito para além de um vulgar fim .?
Tema:
o cerco do sol
20.1.09
um mero caso de drenagem defeituosa
se entupam para sempre com os fragmentos de silêncio e de outros lixos,
que a enxurrada do tempo para lá transporta,
deixemos livremente fluir nossas canções mais intimas e blasfemas
pelo corpo da feminina noite sideral, desde os seios e coxas às goelas dos
/ bichos,
que à sua sombra procriam à pressa atrás de qualquer porta.
Inundado de angústia e amordaçado em sua condição de autoproscrito,
um poeta é a única Coisa que mantém intacto o Infinito.
Tema:
o cerco do sol
breve convívio com insectos inesperados
prolonga-se a agonia das libélulas
que desovam, de asas abertas, inteiramente dadas à luxúria da tarde.
Daí a força que meu ser domina
desde o núcleo das células,
onde a semente do tempo se lá cai germina,
até à flor da pele, que a si mesma se inventa,
perante um infinito que só existe à custa
do que a nossa natureza lhe acrescenta.
À tona do paul a própria luz se manifesta e barafusta
contra o anonimato assumido pelas coisas.
E tu, que a voar a tudo isto assistes,
porque não deixas o poema inacabado e finalmente poisas
num destes juncos tristes ?
Tema:
o cerco do sol
29.12.08
exercício para poema de percussão
para cobardemente a violar depois:
Poetas, por quem sois,
desisti do mistério e da cabala
e renunciai, por uma vez, às soluções extremas
de improvisar asas em cavalos
e, ao mesmo tempo, inventar gargalos
que dificultam o jorro natural dos poemas.
Tema:
o cerco do sol
27.12.08
poema excêntrico
Nas espirais das galáxias e na das conchas
dos univalves, me deslumbro e viajo,
de asas tronchas
e nu de qualquer trajo,
tragicamente centrífugo e solar.
E só irei parar
quando estiver bem dentro
do único ponto da tangente
que me garanta atingir directamente
o anticentro.
Tema:
o cerco do sol
quando os gelos querem ser cauda de cometa
Comemoremos com sangue e júbilo esse dia
em que fomos expulsos
de um ventre onde, inventando o prazer, o sol procria
por interposto ser;
e nos deixa depois deambulando, avulsos
e de asas atrofiadas, através
da maior dimensão que o cosmos possa ter.
Comigo, foi como se caísse,
com toda a poesia do mundo atada aos pés,
de um colo maternal, todo meiguice,
para o mais gelado e inabitável fiorde
da minha mente,
onde o sonho se gera, cria e sente,
sem que o silêncio das estrelas nos acorde.
Tema:
o cerco do sol
um nó no lenço
Amortalhadas, cada uma em seu próprio nome,
jazem algures em mim as coisas – tudo, afinal,
o que com meus nervos tentaculares abranjo e caço
para enganar a fome
essencial
que sem remédio passo.
( É a preciosa escória
do meu ser. )
Daí o nó que há muito dei no lenço da memória,
para me lembrar disso ao falecer.
Tema:
o cerco do sol
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