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22.9.09

da mordedura

atenção atenção
a realidade morde os nossos calcanhares
e quer sejamos muitos ou poucos

há sempre uma sombra
mais duradoura mais opaca que nos tolhe a expressão

atenção atenção
estamos a ficar demasiado lúcidos
e nem sequer estou a falar de sonhos lúcidos

mas da realidade palpável
da ausência do toque
da omnipresença do sem sabor
da mesclada atmosfera em perfume engarrafado

atenção atenção
esperemos que volte essa ânsia de pausar
e desfrutar o que nos rodeia com o devido respeito

4.9.09

da expectativa

estou oficialmente em modo ansiedade. um dos estados essenciais da minha vida.

25.6.09

da rigidez

Inspiro subjectividade
E respiro objectivamente

Abraço o inexplicável
Que me engole para sempre

Este é o ritmo sincopado
Rígido ao invólucro
Que quebra em estilhaços

A melodia ficou para trás
Resta a inquietude

Ao espelho subtraiu-se o estanho
E na transparência a exactidão crua

Esquecido o voo
Rastejo no vácuo asséptico

17.6.09

da indiferença

Sem sobressalto
A maquinaria oleada da monotonia
Espezinha furiosamente os sussurros
Ervas daninhas arrancadas
Uma a uma
Pela raiz

25.3.09

da volatilidade

Amparo nos braços a violência do corpo embriagado nas tempestades eléctricas e na fúria desconexa de uma libertação impossível. Sinto a impotência, a solidão opressora desse corpo que se desfaz perante o meu olhar atento.

Assisto enclausurado à transformação da carne, ao percurso volátil dos músculos liquefeitos nos membros retorcidos. A pele transmuta-se em pedra fustigada pelo vento e pelo mar. Os polos de repulsão eléctrica pulsam aleatoriamente pelo rosto.

Só eu pareço aperceber-me, a plateia finge-se demasiado ocupada a preparar a sua defesa, contra o ataque das condições desumanas, contra o assalto da realidade visível e invisível.

Ainda agora me percorre um calafrio, um choque eléctrico, sempre que acordado cerro as pálpebras. Sempre que adormecido sucumbo aos sonhos em que sinto o toque suave dos teus dedos.

11.3.09

do murmúrio

Há um murmúrio na solidão rochosa do homem quando um cigarro se acende cautelosamente.

Os dedos amarelados traem a imensidão rochosa desse peito. Esse peito aberto ao vento que inspira e transpira desconforto. Nos lábios gotejantes, diamantes disfarçam-se em nuvens de fumo e o beijo é substituído pela sofreguidão de um sorriso forçado.

Duvidas do amor por breves instantes e questionas a alienação por longos momentos.

Esse murmúrio rochoso que se instalou no homem de quem falo não se deve à solidão do amor, mas sim ao fumo do esquecimento. Deseja o esquecimento e evita a todo custo o amor toxicodepência. 

Por isso os lábios onde se formavam diamantes de ternura transformaram-se em duas pedras angulares inorgânicas. Sofregamente inalam e trituram monóxido.

4.3.09

da consciência

A paixão desdobra-se abrupta
Em tristeza e agonia
Quando a mão aprisiona a luz
E a euforia da conquista
Não mais se encontra no coração
Que sofre

11.2.09

da periferia

Desfruta-se prazer inesperado
Maçã pescoço cianeto
Fechadura janela mulher 

Guerrilha interna
Espasmos morais 

A dádiva póstuma
Das relíquias
Televisão espectáculo falsificação 

Truncada
Pelas obras
Deus guerra poder 

Soçobra
Na rotina
Casa trabalho dormir 

Definitiva
A posição do indivíduo na periferia do poder

12.1.09

Gore-Tex

Há relações que apesar de não serem amorosas, são de amor. E também nessas, a maçã envenenada existe e consequentemente a tentação. Mas há várias histórias do Capuchinho Vermelho e nem em todas a avó é comida pelo lobo.

Neste nosso amor, a Cinderela foi embora à meia-noite... quando encontrar a bela da sandália, encontrará o Príncipe que não lhe faz calos na alma e o coração pode finalmente respirar sem asma.

Felizmente este nosso amor é feito de Gor-Tex e tem memória, é inteligente. 

Para ti, Berlim 29 Out. 2008

5.1.09

da linha curva

Não me posso alhear

Sistema cerebral em sobrecarga
Rugosidades digitais impressas
Na mensurável leveza dos arrepios

Nas pegadas as marcas profundas do caminho

Esta é a minha linha curva
Anti matéria 

18.12.08

das palavras sussurradas


Música "La Vie d'Artiste" de Léo Ferré

Esperas tranquila na cama. Essa cama onde te encontras que está tão fria. Como naquele outono em que esperei por ti e não vieste.


Inquieto nesta sala ampla relembro as palavras que sussurraste. Palavras tão directas e espontâneas, como espontâneo e directo
foi regressares a essa cama onde agora esperas.

Esse olhar submisso. 

E aqui estamos no momento exacto da decisão, perturbado respiro fundo e deixo espairecer um último som, trespassado pelas palavras que traçaram este destino. 

Estou-me marimbando

E a provocação da cama, essa cama que mantém o teu corpo quente e espera pelo meu corpo frio. Nesse estado letárgico dou por nós, pela última vez gentilmente um no outro como se nada fosse.

13.12.08

da ausência


‘Encostou a mão ao corrimão de pedra e desceu os dois lances de escadas até atingir o átrio do prédio. Eram as últimas horas do dia e Rafael saía de casa como quem sai de manhã para o trabalho. Mas Rafael não ia trabalhar. O trabalho e ele há muito que se ignoravam mutuamente.
Rafael que em tempos tinha sido apontado pela crítica especializada como um dos mais promissores compositores da sua geração, via agora o trabalho, e a música era agora um trabalho, como um fardo demasiado pesado para a sua cabeça poder suportar.
Pelas ruas à noite a sua silhueta surgia como a de um louco, como a de um pobre diabo. O seu passo era apressado, como o de quem não quer perder um transporte ou como o de quem não quer chegar atrasado a um qualquer encontro. E ao tomar consciência, num rasgo de lucidez, de que o seu transporte há muito o perdera e que os encontros a horas certas já não faziam parte da sua vida sem regras, Rafael abrandava o passo e quase parava, caminhando vagarosamente. Era assim Rafael andando pela cidade. Porém naquela noite sabia onde ia e manteve constante o passo.
Saiu do prédio desceu a rua em direcção à Praça da Figueira e desapareceu da superfície da terra.
Àquela hora as estações do metro são o lado errado. O lado errante. A multidão das horas de ponta, recolheu. Apenas os loucos, os errantes, os solitários conhecem a desolação dos túneis nas entranhas da cidade. Apenas estes conhecem o outro lado.
A estação da Baixa-Chiado estava muda, uma pessoa esperava o metro, uma mulher, à sua frente do outro lado da linha dois homens. O sinfonia do ruído do metro substituiu o silêncio da estação.

Os dois homens do outro lado continuaram imóveis. A mulher entrou. Atrás dela uma sombra de homem entrou também.

Os olhos revirados e o pescoço erguido, erecto com uma cabeça cambaleante. Era essa a figura de Rafael. Os ruídos excessivos das cidades, das máquinas, do progresso, alteravam-no. E quem visse Rafael, agora uma sombra de homem, arrastar o corpo pelas carruagens do metro dançando como um esqueleto, abanando o corpo lentamente veria somente um espectro, a imagem fantástica de uma pessoa ausente do mundo.'

9.12.08

do desassossego


'Frente a frente íamos os dois, e o olhar nervoso daquele homem cruzava o meu. Seduzia-me com a sua aflição. Inquietava-me. Olhava-me, depois desviava o olhar, tremia. Estava nervoso, muito nervoso.
E eu deixo-me envolver facilmente, olhava-o receosa, mas não podia deixar fugir o olhar para qualquer outro sítio. E os olhos daquele homem cruzavam os meus. Se me apertasse e me beijasse eu seria impotente perante o seu suplício. Acho mesmo que se me pedisse para o beijar, eu me levantaria e o beijava, por compaixão. Mas foi ele a levantar-se, não para me beijar, como naquele instante pensei que o fizesse, pois os seus nervos eram nervos de amor. E eu ainda acredito em paixões nascidas de um olhar numa carruagem de comboio.
Dirigiu-se para a janela guiado pelo sonambulismo do seu corpo. O homem estava hipnotizado e eu também! Só de o olhar! Colou a face ao vidro e assim ficou durante algum tempo, não sei quanto, estava hipnotizada pela sua figura. Não tenho presente que mais alguém estivesse naquele compartimento, pelo menos não recordo mais ninguém. Éramos apenas os dois. E um silêncio entre nós. Não trocámos uma só palavra. Nem sei se estaríamos realmente ali. Agora só recordo o matraquear dos carris. O irritante zumbido iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii e o tu-tu tu-tu-tu, aquela sinfonia do desespero. Como eu estava desesperada! Que quadro desolador! Eu olhava aquela sombra de homem agarrada às vidraças. O homem olhava, o quê, não sei, nem com que olhos. Ele estava de costas, mas em algum momento se virou, pois fixei no meu espírito aquele rosto crispado de olhos revirados e a cabeça cambaleante…os olhos revirados com se de um morto se tratasse! A sombra ergueu os braços e num esforço levantou a vidraça. Iiiiiiiiiiiiiiii tu-tu-tu!
Se estava frio este quadro, mais frio ficou agora. Os meus ossos gelaram. O meu corpo tinha arrepios, a minha alma tinha arrepios, toda eu era um arrepio. Um arrepio é isso aquele espectro à minha frente era, um arrepio!
Iiiiiiiiiiiiiiii tu-tu-tu iiiiiiiiiiiii tu-tu-tu !
Duas estátuas de jardim abandonadas à chuva no Inverno. Assim éramos nós, imóveis. Eu, de pé agarrada à maçaneta da porta do compartimento espreitando para fora, olhando-o. Ele, apoiado com os braços e o peito na parte inferior da vidraça. As abas do seu casaco levantadas e as pernas quase como que quebradas, davam a impressão daquele homem, não ser um homem. Era uma sombra. Colado à vidraça era uma lapa. Abraçado à janela era uma lesma.
O tempo era agora imenso. Não sei quanto tempo durou esta visão, quanto tempo passou desde que o comboio deixou a estação. Perdi a noção. Fiquei hipnotizada. Sim, fiquei hipnotizada por aquele homem.
A certa altura o comboio abrandou, os travões chiaram, parecia que iríamos parar, mas não, a sombra acercou-se da janela por inteiro, a velocidade aumentou novamente. A cabeça, os braços e o tronco iam já do lado de fora. Iiiiiiiiiiiiiiii tu-tu-tu iiiiiii tu-tu tu-tu iiiiiiiiiiiii tu-tu-tu ! Foi a última visão que tive daquele homem.'

4.12.08

dos opostos que se tocam parte II

Calmamente na casa do desejo, entras. Sentes-te ansioso, mas dissimulas a paixão por detrás de um ramo de flores. O desejo ela está sentada à janela, olhando o grande olho cósmico nocturno. Embaraçado balbucias palavras ininteligiveis durante o jantar, embaraçado tocas as suas mãos frias durante a sessão de cinema, embaraçado dizes que a amas durante a despedida.

Dás por ti surpreso, a despir-lhe a blusa, os dedos rugosos percorrem o ventre fazendo cócegas ligeiras, dilatando os segundos em minutos, dilatando as coxas contra as coxas. É meia-noite, os sinos repicam e o desejo ela fecha os olhos e deixa-te entrar. Seiva mistura-se com perfume com esperma com salvação.

Madrugada num paraíso urbano qualquer, encontras uma cama mas não consegues adormecer.

3.12.08

dos opostos que se tocam parte I

Caminhas frenético mas encontras o lugar. Uma bola de espelhos onde sobressais na noite. Uma música possessiva percorre o teu corpo bombeando som, inspiração-expiração. 

Violento abanas a cabeça, acompanhado pelo odor do álcool e com espasmos o teu corpo supera todas as leis da física. És tragado por uma força invisível, ao tocar corpos húmidos. Bebes mais um golo, a garganta seca assim o exige. Na imensidão do espaço flutuas, acompanhado de lobos famintos. Estás esfomeado, as mãos ásperas sedentas de sexo assim o exigem.

O desejo ela encontra-se encostada a ti, sôfrego tiras-lhe a roupa, as mãos fortes apertam com força as costas, comprimindo os minutos em segundos, comprimindo o peito contra o peito, suor mistura-se com saliva com esperma com liberdade.

Madrugada num paraíso urbano qualquer, encontras uma cama e adormeces profundamente.

14.11.08

esta é a minha linha curva indomável




Há um tempo exacto para trincar os lábios e saborear a cicuta. Cuspi-la de olhar petrificado como quem contempla a inevitabilidade. Cravar um pé bem firme à frente do outro e caminhar suavemente sem direcção.

da palavra em contramão

Respiro narcotizado com o universo sob controlo, obrigado a reagir na divergência da palavra que escuto com a palavra que afirmo. 

12.11.08

hipercivilização IV


Quando as areias do tempo fustigam a vida e a erosão dos sentimentos se nota em cada passo e em cada gargalhada, permanece heróico aquele que ladrão do tempo, preserva a mania de chegar antes do tempo. Aquele que maneja o amor ao segundo, deixando libertar o olhar exausto no infinito para saborear uma lágrima e provar o doce sabor da ausência.

Esse amor dos defeitos, dos despojos e da esperança

Neste encontro de forças desmedido, levo a minha vida num estado dual entre dois tempos diferentes, como o dia e a noite, como drogado e lúcido. E as águas que não se juntam permanecendo teimosamente separadas. E este esforço de esticar a corda para que não se aparte consome a centelha de alma que ainda percorre dentro de mim. 

E com o passar dos segundos um estado de inacção ganha forma, impele-me à morte, impele-me à sorte de vagabundear de olhos vazios por paisagens magníficas, sem que um tremor sequer me transfigure por dentro.

11.11.08

hipercivilização III


Caixa de cereais da marca Kaboom usada no filme "Kill Bill vol 1" de Quentin Tarantino

Toda a gente diz que agora é que é, velocidade supersónica nas trocas de saliva e o orgasmo magnífico depois da consumação. E a saudade que não vem porque podemos ouvir sempre a tua voz, ver o teu rosto, tocar o teu corpo, sempre igual em toda a parte.

Toda a gente diz que agora é que é, todos os homens e mulheres ocos, todas as coisas acessórias de que não necessitamos.

E os novos slogans do direito à indiferença assentam impecavelmente nas relações hermafroditas. E os novos heróis, figurinhas de plástico reciclado articulável, produtos empacotados em pacotes de Corn Flakes são fiéis à máxima de todos iguais sem sabor. E os tempos livres que são enfadonhos. E as idas ao hipermercado desportos radicais. E esta hipercivilização que avança ao sabor das quotas de mercado como um transplante cerebral encarquilhado pela propaganda da produtividade.

10.11.08

hipercivilização II


Assim se fizeram homens e mulheres, gerações perpétuas de ardores correspondidos e impérios incontáveis em perfeita harmonia. E a natureza seguia o seu curso, cada rio escoava até ao mar sem barreiras, cada religião corria o risco de se tornar banal na presença do amor, e cada nação prestava vassalagem à passagem dos arautos da beleza. Em tudo reinava uma presença angélica.

Mas eram apenas meros fogachos que perpassaram por entre um piscar de olhos e que fizemos por afogar brutalmente, como quem pressiona um corpo frémito dentro de água. Arrebatamentos fúteis na hora da decisão.

Este é o mundo das máquinas trituradoras, engenhos puros maquilhados residualmente antropomórficos, autómatos oleados que viram caducar a sua existência no contínuo avanço tecnológico.

E nesse ambiente de constante mutação, da obsolescência, nasceu uma nova ordem imposta pela androginia clonada da ambição humana e pelo frémito desmedido dos corpos em chamas que tudo queimam em redor deixando em cinzas o amor.