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26.12.08

dos nós e da regulação




Botões e cabos. É talvez uma parte da nossa estória pessoal. Vivemos ligados e em regulação sempre. Detestamos talvez cabos eléctricos atravessados na nossa visão. Deixamos enredar-nos neles. E não os conseguimos desenlear. Os nós modernos dos pescadores, que acompanhando a nossa urbanidade são nós sem organização.

Botões ligados, botões desligados. Palavras soltas ou orgulhos contidos em arrependimento. Desliga aí o botão da censura se faz favor. Ora aumenta lá a intensidade da tua produção. Chaplin via parafusos em todo o lado, como numa linha de montagem eterna que é a nossa vida.

Eu se fizesse uma revisão dos tempos modernos, substítuia os parafusos por botões e cabos. Assim tem sido a minha vida nestes últimos dias.

13.12.08

da ausência


‘Encostou a mão ao corrimão de pedra e desceu os dois lances de escadas até atingir o átrio do prédio. Eram as últimas horas do dia e Rafael saía de casa como quem sai de manhã para o trabalho. Mas Rafael não ia trabalhar. O trabalho e ele há muito que se ignoravam mutuamente.
Rafael que em tempos tinha sido apontado pela crítica especializada como um dos mais promissores compositores da sua geração, via agora o trabalho, e a música era agora um trabalho, como um fardo demasiado pesado para a sua cabeça poder suportar.
Pelas ruas à noite a sua silhueta surgia como a de um louco, como a de um pobre diabo. O seu passo era apressado, como o de quem não quer perder um transporte ou como o de quem não quer chegar atrasado a um qualquer encontro. E ao tomar consciência, num rasgo de lucidez, de que o seu transporte há muito o perdera e que os encontros a horas certas já não faziam parte da sua vida sem regras, Rafael abrandava o passo e quase parava, caminhando vagarosamente. Era assim Rafael andando pela cidade. Porém naquela noite sabia onde ia e manteve constante o passo.
Saiu do prédio desceu a rua em direcção à Praça da Figueira e desapareceu da superfície da terra.
Àquela hora as estações do metro são o lado errado. O lado errante. A multidão das horas de ponta, recolheu. Apenas os loucos, os errantes, os solitários conhecem a desolação dos túneis nas entranhas da cidade. Apenas estes conhecem o outro lado.
A estação da Baixa-Chiado estava muda, uma pessoa esperava o metro, uma mulher, à sua frente do outro lado da linha dois homens. O sinfonia do ruído do metro substituiu o silêncio da estação.

Os dois homens do outro lado continuaram imóveis. A mulher entrou. Atrás dela uma sombra de homem entrou também.

Os olhos revirados e o pescoço erguido, erecto com uma cabeça cambaleante. Era essa a figura de Rafael. Os ruídos excessivos das cidades, das máquinas, do progresso, alteravam-no. E quem visse Rafael, agora uma sombra de homem, arrastar o corpo pelas carruagens do metro dançando como um esqueleto, abanando o corpo lentamente veria somente um espectro, a imagem fantástica de uma pessoa ausente do mundo.'

9.12.08

do desassossego


'Frente a frente íamos os dois, e o olhar nervoso daquele homem cruzava o meu. Seduzia-me com a sua aflição. Inquietava-me. Olhava-me, depois desviava o olhar, tremia. Estava nervoso, muito nervoso.
E eu deixo-me envolver facilmente, olhava-o receosa, mas não podia deixar fugir o olhar para qualquer outro sítio. E os olhos daquele homem cruzavam os meus. Se me apertasse e me beijasse eu seria impotente perante o seu suplício. Acho mesmo que se me pedisse para o beijar, eu me levantaria e o beijava, por compaixão. Mas foi ele a levantar-se, não para me beijar, como naquele instante pensei que o fizesse, pois os seus nervos eram nervos de amor. E eu ainda acredito em paixões nascidas de um olhar numa carruagem de comboio.
Dirigiu-se para a janela guiado pelo sonambulismo do seu corpo. O homem estava hipnotizado e eu também! Só de o olhar! Colou a face ao vidro e assim ficou durante algum tempo, não sei quanto, estava hipnotizada pela sua figura. Não tenho presente que mais alguém estivesse naquele compartimento, pelo menos não recordo mais ninguém. Éramos apenas os dois. E um silêncio entre nós. Não trocámos uma só palavra. Nem sei se estaríamos realmente ali. Agora só recordo o matraquear dos carris. O irritante zumbido iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii e o tu-tu tu-tu-tu, aquela sinfonia do desespero. Como eu estava desesperada! Que quadro desolador! Eu olhava aquela sombra de homem agarrada às vidraças. O homem olhava, o quê, não sei, nem com que olhos. Ele estava de costas, mas em algum momento se virou, pois fixei no meu espírito aquele rosto crispado de olhos revirados e a cabeça cambaleante…os olhos revirados com se de um morto se tratasse! A sombra ergueu os braços e num esforço levantou a vidraça. Iiiiiiiiiiiiiiii tu-tu-tu!
Se estava frio este quadro, mais frio ficou agora. Os meus ossos gelaram. O meu corpo tinha arrepios, a minha alma tinha arrepios, toda eu era um arrepio. Um arrepio é isso aquele espectro à minha frente era, um arrepio!
Iiiiiiiiiiiiiiii tu-tu-tu iiiiiiiiiiiii tu-tu-tu !
Duas estátuas de jardim abandonadas à chuva no Inverno. Assim éramos nós, imóveis. Eu, de pé agarrada à maçaneta da porta do compartimento espreitando para fora, olhando-o. Ele, apoiado com os braços e o peito na parte inferior da vidraça. As abas do seu casaco levantadas e as pernas quase como que quebradas, davam a impressão daquele homem, não ser um homem. Era uma sombra. Colado à vidraça era uma lapa. Abraçado à janela era uma lesma.
O tempo era agora imenso. Não sei quanto tempo durou esta visão, quanto tempo passou desde que o comboio deixou a estação. Perdi a noção. Fiquei hipnotizada. Sim, fiquei hipnotizada por aquele homem.
A certa altura o comboio abrandou, os travões chiaram, parecia que iríamos parar, mas não, a sombra acercou-se da janela por inteiro, a velocidade aumentou novamente. A cabeça, os braços e o tronco iam já do lado de fora. Iiiiiiiiiiiiiiii tu-tu-tu iiiiiii tu-tu tu-tu iiiiiiiiiiiii tu-tu-tu ! Foi a última visão que tive daquele homem.'

23.11.08

apontamentos sobre a trilogia natureza homem metrópole

O Homem na condição de criador gerou o organismo perfeito para comportar a sua existência individual. O receptáculo acolhedor de tentáculos estendidos sobre a natureza

E o indomável frémito das ondas, o poderoso assobiar do vento e a delicadeza dos finos braços das árvores já não impera.

Chegou a hora da simplicidade cruel, do cimento geométrico, do caos estabelecido do tráfego e da sinfonia afónica da máquina com os seus nevoeiros fotoquímicos e relógios sincronizados ao milímetro.

Chegou a hora da Metrópole exibir orgulhosamente a supremacia, sobre o Homem e sobre a Natureza.

Indivíduos são agora uma amálgama de espaços aéreos, terrestres e aquáticos, organizados em células macroscópicas. O homem é apenas uma minúscula partícula, roda dentada. O pássaro é de metal e pesa toneladas. A árvore tem centenas de metros de altura, ergue-se orgulhosa, espelhada reflectindo luz quando o sol se apaga.

Chegou a hora do ajuste de contas.

A Natureza assim como o Homem estão agora moribundos esperando o golpe de misericórdia. Mas tal como a natureza na sua imperfeição gerou o Homem também a Metrópole cresceu ferida de morte. E este é o seu lamento. A sua dádiva.

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Este é o lamento
A batalha pela sobrevivência
Num mundo dividido entre o Homem e a Natureza
Perdido pelos dois em detrimento de uma nova era
A minha a da metrópole

da vida das árvores na cidade


21.11.08

distracções



NYc 30 segundos volvidos e apenas me pergunto quanta informação terei perdido.

20.11.08

uma visão sobre a cidade (circa 2002)

A cidade já não lança o seu rugido na noite, permanece agora quieta enquanto o vento varre as folha de um jornal amarelecido, onde se proclama o fim do apartheid. A metrópole é de silêncio, abafa a alegria em papel de alumínio, reflecte-se apenas em espelhos luminosos, de pequenas luzes em raras janelas. A cidade encontra-se fantasma como a tapeçaria celeste, gélida e imóvel.

Nós somos a metrópole fantasma, a solidão dos danos colaterais e o inóspito vácuo.

Nós somos o automóvel que desce as avenidas lançando o seu ronronar servil e iluminando os cantos, becos e esquinas com potentes faróis.

Nós somos a fuga do tempo no magnífico asfalto despido, quando os nossos sentidos se enganam pelo reflexo de uma luz há muito extinta.

Nós somos a mega estrutura das vias rápidas onde um aceno de cabeça se devanece na corrida louca contra um tempo imutável.

Nós somos a violência desta cidade, omnipresente no arame farpado, nas vedações electrificadas, na patrulha policial armada - 24 horas por dia.

Esta cidade não repousa quando o sol se põe permanece em perpétua vigilância. Esta cidade não rejubila quando a noite desvanece e se ouvem gritos abafados nos jardins de betão armado. Vida após vida adormece fumegante no solo, sem nenhuma dignidade, excepto um cartão de crédito, um telemóvel e uma identidade numérica.

30.10.08

big science


"Big Science" Álbum de Laurie Anderson

Houve um tempo em que me deixei fascinar pela metrópole. Esse tempo em que coincidente crescia, nem só de imagens e estórias sobre Nova Iorque o meu imaginário era povoado, mas também de sons. 

O meu pai trouxe dessa cidade slides e um vinil da Laurie Anderson chamado Big Science que continha uma música com o mesmo nome. Na minha cabeça, a conjugação dos arranha céus com a urbe em efervescência, com os uivos dos lobos não podia fazer mais sentido e sugeriu a minha mitologia da metrópole, que diga-se ainda hoje me acompanha e cada vez mais.

As cidades de ouro, povoadas de lobos a uivar que coabitam o cimento, o aço e o vidro, o órgão técnorgânico a ressoar, enquanto se desdobra cada esquina, e cada rua. O admirável mundo novo, todo de ouro, como o grande tesouro da humanidade. Aqueles lobos, ainda lhes sinto o respirar calmo. As longas filas de carros, os grandes sinais e cartazes, a grande utopia. As cidades douradas e os lobos povoados pelo som frio e quente de um órgão técnorgânico. A grande ciência, o rigor e a exactidão como aspiração, ao mesmo tempo a solidão.

http://www.laurieanderson.com/microsites/Big-Science/index.html

18.10.08

sistema circulatório

















da cidade o corpo veia cava inferior