Mostrar mensagens com a etiqueta fracturas expostas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fracturas expostas. Mostrar todas as mensagens

9.7.09

intermezzo

BREVE DRAMA EM TRÊS ACTOS

I

Viajo clandestinamente nos porões infectos
das palavras - fantasmas, vindas do interior do Tempo,
que arribam, nervos adentro, ao limiar do Ser,
para tentarem o assédio ao Espírito
( e às quais este se recusa a dar jazida
na doca da memória ).

II.

E, assim, na condição de errantes - eu e elas -
viajamos pelo Cosmos, com a data do óbito tatuada na face,
estimulando as nebulosas a segregarem os poemas
de que a Eternidade carece para a sua própria existência
e a Alma não dispensa para o equilíbrio instável
da sua arquitectura.


III

Caído em decúbito, o silêncio explica tudo;
e a Música sobrevive, no íntimo do cérebro,
à ruptura dos tímpanos da Alma
irreversivelmente feridos pelos timbales triunfais da Morte.
E, quando o pano cai, fico do lado de cá,
Excluído, humilhado e a mascar com raiva este abandono.

anátema

Em cada verso há um pássaro esganado
e um voo interrompido
- asas inertes cujas rémiges perderam o sentido
mas que o poeta arranca e usurpa para sentir-se alado.

Feito o poema, que dedico
ao teu corpo de mulher - substância do meu sonho -,
sou compelido a cumprir o meu destino de ave: Nidifico
no labirinto do teu sexo misterioso e aí deponho
a Via Láctea do meu sémen povoado de astros e asteróides.


Não haverá maldição, que sobre ti não caia,
se um dia renunciares a tudo o que eu te der e de mim saia,
incluindo versos e espermatozóides.

9.4.09

excerto de livro inédito

USUCAPIENTE IMAGINÁRIA, A ALMA...

Da minha loucura serei dono
só porque tem sido pacífica e prolongada a posse ?

E o Outono,
disfarçado de ave migradora, por mais que no seu voo roce
a infinitude do tempo, poderá vir a ser dono
das folhas que mata de amarelo ?

São porventura meus os arquétipos que aceito, uso e esfacelo
na minha mente e que tento depois com as mãos da memória
/ reconstruir no barro
substancial das palavras - e não posso ?

Só o sarro
de tudo quanto existe é verdadeiramente nosso
( e mesmo assim invocando a usucapião ).

E até esse ( ou isso ) irá comigo um dia dar sentido ao chão.

8.4.09

vitral em parede cega

Com estilhaços de si próprio o Sol constrói o puzzle da aurora.

Por isso, o dia nasce já com asas emprestadas
e o corpo hipotecado à luz que o devora;
por isso, é que as imagens das coisas jacentes na memória
são apenas pressentidas e como tal guardadas
- enfim, simples escória
para deitar ao lixo.

25.3.09

arca encoirada

Deus fechou-me a Alma
e engoliu a chave:
Sou agora a ave
que cai com a calma,
( como no soneto
de Sá de Miranda ).

Lá poetar, poeto;
mas quem pode e manda
deixa, porventura,
que eu próprio me abra,
usando a loucura
como pé de cabra ?

Se Deus não defeca,
nem bolça o que ingere,
nada há que eu espere
desta inútil seca.

Ele há-de, porém,
descobrir no fim
que a chave que tem
não me abre a mim.

19.2.09

22.55.09

INSECTOS NUM CANDEEIRO EM NEW YORK

Inesperadamente, um corte
na carne da alma e a consequente hemorragia
que, por definição, nada mais há que a estanque
a não ser a morte
mais recôndita ou o torniquete do sol ao meio-dia.

Um substrato ianque
perpassa em tudo e tudo invade
desde a sombra mais secreta
à mais cristalina claridade

E o sexo transformado em fast food do poeta
deixa Withman, perdido em Nova Iorque,
no seu mais nocturno e escuro beco sem saída,
a construir um monumento ao fácil e imediato,
e deixando que a Liberdade enfim se enforque
num candeeiro apagado da Quinta Avenida.

Qualquer drama, porém, vai muito para além do derradeiro acto.

17.2.09

metamorfoses da morte


É viscoso o silêncio da palavra presa
na teia da memória que o cérebro urde, feito aranha,
nos recônditos vãos da sua própria imensidade,
para sugar da vítima indefesa
o que o poderia saciar e jamais ganha:
a substância intemporal da realidade.

Mascarada de triste,
a tudo isso a alma complacente assiste,
perversamente gerindo o insuperável desajuste
entre o eu e o objecto,
o capitel e o fuste,
a aranha e o insecto.

21.1.09

escritura de compra e venda


Escritura de Compra e Venda---------------------
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------
“ Aos tantos de tal do ano de não sei quantos,----------------------------
na vastidão do Cosmos,--------------------------------------------------------------------
perante mim, notário privativo do Absurdo,----------------------------
e as testemunhas idóneas - o Atavismo e a Memória,-------------------
compareceram como outorgantes:---------------------------------------------------------
- Primeiro: O Tempo,---------------------------------------------------------------------
casado em regime de absoluta separação de bens com a Matéria,
ambos naturais do Universo,-------------------------------------------------------------
com residência habitual dentro e fora das Coisas,-------------------------
outorgando por si e ainda pelo Espaço--------------------------------------------
( este ausente em parte incerta e natural do Equívoco ),----------
conforme poderes que lhe foram conferidos-------------------------------------
por procuração outorgada, no cartório do Caos,----------------------------
na véspera do primeiro dia do Génesis;---------------------------------------
- Segundo: A Alma, divorciada do Tudo,----------------------------
com residência habitual dentro do Corpo,----------------------------------
natural dum país sem divisão administrativa conhecida.-----
Reconheço as identidades de ambos os outorgantes,-------------------
por serem do meu conhecimento pessoal. ------------------------------------
Pelo primeiro outorgante foi dito :----------------------------------------------
Que, por esta escritura, vendia ao segundo,--------------------------------
livre de quaisquer ónus e encargos,------------------------------------------------
pelo valor do quotidiano consciente ---------------------------------------------
- preço já recebido e do qual, por isso, dava à compradora- -----
a correspondente quitação -------------------------------------------------------------
a parte que a ele e ao seu representado cabe no meu Ser,------
a qual confronta de todos os lados com o Infinito.-------------------
Pelo segundo outorgante foi dito: Que aceitava este contrato,
nos precisos termos em que fica exarado,---------------------------------------
bem como a quitação do preço.-------------------------------------------------------
Assim o disseram, outorgaram e reciprocamente aceitaram,
na minha presença,-----------------------------------------------------------------------
pelo que vão assinar esta escritura comigo,--------------------------------
notário privativo do Absurdo e poeta nas horas vagas,------
depois de por mim ter sido lida em voz alta---------------------------
e explicado o seu conteúdo e efeitos,----------------------------------------------
na presença simultânea das testemunhas e dos outorgantes.
( Seguem-se as assinaturas ). ”----------------------------------------------