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1.4.09

da natureza dos lugares

Há uma intrínseca tristeza na vida urbana pura. Nem boa nem má. Mas consegue-se ver transparente nos rostos de quem está nesta viagem. Podem ter olhos grandes negros supostamente impenetráveis. Podem ter 12 anos e caminhar de jeans compradas na feira. Podem fazer a barba todos os dias sistemáticos às 6h30 da manhã. Pode chover e pode estar um sol radiante. Nada indica que essa tristeza seja real, mas está lá, omnipresente. Isso, ou andar de metro em Lisboa com Decades dos Joy Division nos ouvidos a mascarar tudo o que se passa à minha volta.

11.1.09

da submissão

definitiva 

a posição do indivíduo 

na periferia do poder

15.12.08

das segundas oportunidades

A oportunidade de viver outra vez um mundo exótico, um corpo estranho.

Pensamentos são expelidos violentos, reais. De olhar penetrante subtrais da bolsa um cigarro e pedes-me lume. O teu toque gela o entusiasmo. Os minutos sobrepõem-se aos segundos, a desilusão sobrepõe-se à expectativa e a conversa deriva ferida de morte.

Proferes suaves insultos para não ferir susceptibilidades. Interessas-te pelos detalhes da minha vida. Imponderável. Estou noutra, espero impaciente o cerrar dos lábios.

Insistes em querer a minha presença , o pé que precede a mão, a mão que dá lugar à boca. Forças o beijo, intimidado tento resistir ao charme possessivo. Farrapo concedo.

9.12.08

dos utensílios mundanos

Este é o objecto que está todos os dias à nossa espera para servir o seu propósito


Podem ouvir o som "Aluminium Sounds" no separador SONORIDADES
AVISO: Ouvir som com auscultadores para apreciar convenientemente

Às vezes a beleza dos utensílios mundanos nem sequer chega a ser apreciada uma única vez, nem ao de leve. Por isso, na realidade outra interpretação pode ser dada visual ou sonora, e com ou sem esforço, uma paisagem gelada aparece, um pedaço do museu gugenheim, o restolhar de chuva numa superfície de metal. 

25.11.08

da celebração


Minha é vossa a alegria em comunhão, exposta com tal fragilidade que ligo as nossas mentes num abraço fraterno.

23.11.08

da vida das árvores na cidade


18.11.08

ave de vento

ave de vento
vento de hoje
hoje de sempre
sempre de ti
ti de mim
mim de nós
nós de sonho
sonho de vida
vida de verme
verme de cansaço
cansaço de peso
peso de ar
ar de manhã
manhã de canto
canto de ave
ave de vento







'ontem em lisboa havia gaivotas no ar
as folhas carmim de certas àrvores rebolavam na calçada
levadas pelo vento
numa rua apertada perto da estrela
olhei ao acaso este painel numa parede
vi as aves de vento
à noite reli esta brincadeira de café
foi em maio de 1997
o tempo voa como a ave de vento'

16.11.08

de olhos límpidos a substância


Trabalho em progresso, um ritmo ao sabor do improviso, palavras unidas soltas pela fractalidade. O tempo e o espaço narrados. Uma estrutura mental consolidada.

Desta fragmentação ordenada e cautelosa nasce o que de olhos límpidos sempre esteve presente. Substância.

6.11.08

outono encarnado



Fotografia de Inês Costa publicada no blog http://ostelhados.blogspot.com/

Hoje um lampejo do outono encarnado entrou-me pelos olhos dentro em Lisboa. Para  o ano espero finalmente poder regojizar-me com essa imagem no seu esplendor máximo.

2.11.08

imagem real em construção

Um par de luvas espalhadas numa passadeira junto ao jardim Gulbenkian, sem marcas dos pneus. Ninguém nota a coincidência, ou como alguém anda desesperadamente a tentar comunicar. Primeiro o par de sapatos mocassin, agora um par de luvas, sempre cuidadosamente espalhados, como estórias de uma geografia pessoal. 

Quem será este homem ou mulher que tão insistente se deixa despojar da sua roupa? Qual o significado destes locais? 

Espero ansioso por mais sinais.

29.10.08

do sonho emana a realidade

Foto: Cristina Paixão


entra luz difusamente iluminando-me o rosto. perco a noção de espaço, tantas as paisagens que percorri. neblina diz-me que é o rio que despeja sobre mim o soar dos cruzeiros lentamente engolindo uma língua de cais. orgânicas erguem-se gruas salpicando de ferro pouco o ferro imenso que pulsa entre margens. um arrepio transpira dos poros sorrindo. realidade outrora sonho.

25.10.08

ausências

Da janela  vejo sempre um galo no cimo de uma torre. De noite está ligeiramente iluminado. Acho triste nunca ouvir o seu cantar. Se calhar vivo numa cidade.

22.10.08

do prazer de vagabundear

Hoje não fiz o percurso directo, do trabalho para casa. Longe disso, deixei-me rolar por locais desta cidade onde fui e onde serei. 

Do passado projectei o futuro destas ruas, destes prédios e destas árvores no meu quotidiano. E ainda não foi esta tarde que choveu, mas quando os salpicos de chuva lhes puxarem o brilho estarei outra vez a fazer o passeio transviado à minha rotina. 

Até lá contínuo a minha vida como se nada fosse. Adoro Lisboa.

17.10.08

a presença do outono


quando foi a última vez que repararam no Outono? eu reparei hoje.

estava no carro e de repente a conjugação do vento e das árvores presenteou o meu carro com um banho de folhas amarelas limão. foi melhor do que lavar o carro numa qualquer máquina automática de lavagem de veículos. a languidez das folhas lambendo o vidro, o vento empurrando-as sincopadamente para lá e para cá.

gostava que estivessem presentes para ver a luminosidade que preencheu o habitáculo, resplandescente.



'imagem por Paulo Bernardino Ribeiro'

imagem real


par de sapatos mocassin, pretos e bastante usados, sem pés agarrados, nem pernas. Este par está cuidadosamente arrumado no lancil da divisória de betão entre os dois sentidos da segunda circular e os carros passam a 100 à hora e mesmo que dêem por eles como foi o meu caso, rapidamente o esquecem.