O Diabo toca flauta num campo de lírios
e o pacto nervos-alma é denunciado nesse instante..
Todas as coisas, especialmente as flores, têm o ar de quem chega
e ninguém as espera.
Por isso, há óvulos dependurados em todas as árvores
desesperando que os frustrem ou fecundem,
enquanto as mãos dos poetas se entregam como fêmeas
ao insaciável desejo de alma dos objectos inertes.
- Mas, afinal, sentir as coisas é adiar a sua posse,
não é, senhor Diabo, encantador de serpentes?
Adeus, roçar lascivo do devir,
que exacerbas até ao transe
a fome secular com que roemos as coisas!
Adeus, aves felizes, que saturastes de voos inúteis todo o espaço possível!
Adeus, adeus, barcos sexuados e expectantes,
que tendes as proas varadas na memória das viagens
através da solidão que separa as estrelas entre si!
( Oh, este nosso morrer de morte a bordo! )
- Deixai-me simplesmente que dissipe esta lírica e herdada
sensação de baía do ponto de vista do mar.
O que se ama, isso ( di-lo a música ) é o nosso próprio limite.
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1.5.09
7.4.09
poema introdutório
Aquilo de que o homem despojou as coisas
não lhes faz falta
porque elas continuam a ser do mesmo modo.
Mas há um cavalo de ventas mornas
com patas como qualquer cavalo e asas como nenhum...
( As rédeas são notas agudas de flauta
e o flanco fácil e sereno).
O seu nascer é ininterrupto
para morrer amanhã.
- E tal não acontece ao mesmo tempo por um truque de câmbio,
para que a morte não perca o seu valor extrínseco
nas obsessões da água
e na alegria dos bichos,
enquanto permanece inefável a conjugação de sexos nas árvores.
Mas não bastam as asas ao cavalo:
São necessárias as patas,
imprescindíveis as patas do cavalo
- funcionais, autênticas, terríveis -
porque as patas do Pégaso são falsas
à força de tanto desdobrarem asas subservientes.
Asas? Quase inúteis...
Se as patas forem patas
capazes de bradar no solo surdo,
o céu há-de baixar-se para que o cavalo o penetre.
não lhes faz falta
porque elas continuam a ser do mesmo modo.
Mas há um cavalo de ventas mornas
com patas como qualquer cavalo e asas como nenhum...
( As rédeas são notas agudas de flauta
e o flanco fácil e sereno).
O seu nascer é ininterrupto
para morrer amanhã.
- E tal não acontece ao mesmo tempo por um truque de câmbio,
para que a morte não perca o seu valor extrínseco
nas obsessões da água
e na alegria dos bichos,
enquanto permanece inefável a conjugação de sexos nas árvores.
Mas não bastam as asas ao cavalo:
São necessárias as patas,
imprescindíveis as patas do cavalo
- funcionais, autênticas, terríveis -
porque as patas do Pégaso são falsas
à força de tanto desdobrarem asas subservientes.
Asas? Quase inúteis...
Se as patas forem patas
capazes de bradar no solo surdo,
o céu há-de baixar-se para que o cavalo o penetre.
22.3.09
transfiguração errada
::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
Há uma fraude na paisagem: A luz que a ilumina é da véspera!
E o estafeta, dando por isso, pára de repente
e, ante o pasmo de córregos e árvores,
deixa cair da mão o testemunho inútil
e morre afogado em desespero.
...........................................................
...........................................................
É então que surge um anjo resplandecente de luz
( daquela mesma luz que antes faltava à paisagem ),
e arrebata consigo o testemunho,
ainda quente,
não do chão mas da mão, agora fria,
do poeta que fica, inteiro mas bem morto,
a apodrecer nas cores do Arco da Aliança.
Há uma fraude na paisagem: A luz que a ilumina é da véspera!
E o estafeta, dando por isso, pára de repente
e, ante o pasmo de córregos e árvores,
deixa cair da mão o testemunho inútil
e morre afogado em desespero.
...........................................................
...........................................................
É então que surge um anjo resplandecente de luz
( daquela mesma luz que antes faltava à paisagem ),
e arrebata consigo o testemunho,
ainda quente,
não do chão mas da mão, agora fria,
do poeta que fica, inteiro mas bem morto,
a apodrecer nas cores do Arco da Aliança.
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