27.12.08

do ciclo da água

Não necessito mais do espaço por descobrir porque existe apenas o meu lugar, simulacro do globo inteiro. Esse lugar é uma sinfonia aquática barroca.

Raios ultravioletas desinfectam a água circular em que lavo o corpo. A espuma dos químicos que se esvai pelo ralo abaixo irá servir para alguém mais pobre que eu a dez mil quilómetros de distância.

Mas não me importo porque estou só.

A água que bebo fragmentada à milionésima parte, regressa dessa viagem embebida em plástico brilhante e multicolorido e podia servir para tomar mais um banho. 

Mas não vale a pena porque lá fora caem grossas gotas ácidas do céu.

Por isso espero por trás da vidraça semi líquida enquanto trinco uma maçã produzida por duas crianças de dez anos e os pesticidas embutidos nos dedos que colhem a fruta apenas revelam o sabor da mesma água.

Mas não interessa porque preciso apenas de manter os rituais funcionais, para me sentir infinitesimamente menos só, menos gota de orvalho deslizando folha abaixo, na direcção do desconhecido.

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