30.11.08

entre mentes



um copo me diz a distância da sanidade.

29.11.08

pião

Foto: http://www.flickr.com/photos/16895553@N07/2905073794/

Laivo, mudança   

rodopio em redor muda 

tempo muda 
entendimento 

muda mundo nascimento 
direcção rumo   

assimétricas almas amizades 
mutação   

acelerada   

densa   

ávida rodopio
embriagada

afirmo observo confiro


afirmo observo confiro
congelo os meus mísseis de longo alcance
e não te alcanço
retorno ao cativeiro que é viver sem ti
estabeleço um programa de negócios
negoceio um ensaio de sanções
sanciono as irresponsáveis autoridades
autorizo a abolição do governo
governo o nosso amor
com penas de flamingo
e outras aves de estuário
que é o teu corpo
feito das águas dos meus mergulhos

queria partir nas águas de um bando.
queria partir nas asas de um rio.

contigo crio um país sem mundo
uma terra em suspenso
composta de anos a teu lado
e dias raros

27.11.08

da infância



O zénite dissolve-se no caminho ascendente enquanto deambulo pela rua cheia de promessas. Crianças brincam ao acaso, como fiz também quando ao acaso ia deambulando cheio de energia, orientado apenas por olhos protectores.


O sabor da vida sem perspectiva. As loucuras cometidas no excesso da novidade, sem ironia nem malícia. O prazer de mentir, para preservar os pequenos minutos deliciosos. Viver inconsciente dos problemas mundanos mas mergulhado neles até ao pescoço. Viver assim no acaso premeditado como quem arrisca a vida permanentemente sem o saber, como um movimento subtil de quem apenas quer viver a vida inteira amparado por uma rede invisível.

26.11.08

uma certa nostalgia



Agora que os eventos se precipitam cada vez mais rápidos, nada como uma imagem de fim de verão para relembrar a intemporalidade. 

25.11.08

da celebração


Minha é vossa a alegria em comunhão, exposta com tal fragilidade que ligo as nossas mentes num abraço fraterno.

24.11.08

dos edifícios devolutos


23.11.08

apontamentos sobre a trilogia natureza homem metrópole

O Homem na condição de criador gerou o organismo perfeito para comportar a sua existência individual. O receptáculo acolhedor de tentáculos estendidos sobre a natureza

E o indomável frémito das ondas, o poderoso assobiar do vento e a delicadeza dos finos braços das árvores já não impera.

Chegou a hora da simplicidade cruel, do cimento geométrico, do caos estabelecido do tráfego e da sinfonia afónica da máquina com os seus nevoeiros fotoquímicos e relógios sincronizados ao milímetro.

Chegou a hora da Metrópole exibir orgulhosamente a supremacia, sobre o Homem e sobre a Natureza.

Indivíduos são agora uma amálgama de espaços aéreos, terrestres e aquáticos, organizados em células macroscópicas. O homem é apenas uma minúscula partícula, roda dentada. O pássaro é de metal e pesa toneladas. A árvore tem centenas de metros de altura, ergue-se orgulhosa, espelhada reflectindo luz quando o sol se apaga.

Chegou a hora do ajuste de contas.

A Natureza assim como o Homem estão agora moribundos esperando o golpe de misericórdia. Mas tal como a natureza na sua imperfeição gerou o Homem também a Metrópole cresceu ferida de morte. E este é o seu lamento. A sua dádiva.

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Este é o lamento
A batalha pela sobrevivência
Num mundo dividido entre o Homem e a Natureza
Perdido pelos dois em detrimento de uma nova era
A minha a da metrópole

da vida das árvores na cidade


21.11.08

como a recta pode afinal ser curva

Palavras alinhadas em resposta aos poemas "da irreversibilidade enquanto libertação" de Paulo Bernardino Ribeiro e "Tempo Preso" de Maria João Rodrigues

O tempo e o espaço 
O Homem e a Terra
Como corpos exógenos
Insinuam-se clarividentes e incisivos
A recta a destreza e a amplitude são também curva densidade e sombra 

...

Tudo
Em nós
Marca
Passagens
Obtusas através do TEMPO 

Exterminados e
Sobrepostos
Passeando
Através do subtil
Caminho
Obliteramos o ESPAÇO

Há um brilho
Ofuscante no universo
Mas
Esta noite
Memórias são únicas ao HOMEM 

Temos
Em nossas mãos
Rectas, planos e pontos
Redefinidas como curvas e superfícies
Apesar de serem sempre a mesma TERRA em que nos movemos 

...

O tempo e o espaço
O Homem e a Terra
Como corpos exógenos
Moldam-se inolvidavelmente à nossa imagem

da irreversibilidade enquanto libertação

'glosa assimétrica ao poema tempo preso de Maria João Rodrigues'
:
há na irreversibilidade do tempo
a boa vontade do criador

jamais a curva o cansaço e a densidade
mas a recta a destreza e a amplitude

sendo o tempo reversível
como ponteiros em marcha-à-ré
não eterno mas perecível sim por tal olvidável o tempo
seria então exíguo o espaço

e não poderia eu correr na amplitude do ar
aspirando os segundos do tempo um depois outro
jamais a curva a espiral a repetição mas o maravilhoso desconhecido
libertação

do rio com seus portos e amarras enquanto objecto poético


'pontão sobre o rio tejo em alcochete numa tarde de outono'

tempo preso

Cat's Eye Hubble Remix. Image Credit: NASA, MAST, STScI, AURA and Vicent Peris (OAUV/PTeam)

http://www.nasa.gov/multimedia/imagegallery/iotd.html
 
reversível
aprisiona-se   
tempo

ido será vindo 
foi sentido 
não tempo 
veio   

tempo corre 
paralisa 
tempo
vagar cansa    

denso tempo 
morto 
inexorável curvo   
tempo 

eterno   

retorno tempo 
devir foi 
será 
intuição 

tempo 

sensibilidade cor       
teima 
não tempo 
hoje


distracções



NYc 30 segundos volvidos e apenas me pergunto quanta informação terei perdido.

20.11.08

uma visão sobre a cidade (circa 2002)

A cidade já não lança o seu rugido na noite, permanece agora quieta enquanto o vento varre as folha de um jornal amarelecido, onde se proclama o fim do apartheid. A metrópole é de silêncio, abafa a alegria em papel de alumínio, reflecte-se apenas em espelhos luminosos, de pequenas luzes em raras janelas. A cidade encontra-se fantasma como a tapeçaria celeste, gélida e imóvel.

Nós somos a metrópole fantasma, a solidão dos danos colaterais e o inóspito vácuo.

Nós somos o automóvel que desce as avenidas lançando o seu ronronar servil e iluminando os cantos, becos e esquinas com potentes faróis.

Nós somos a fuga do tempo no magnífico asfalto despido, quando os nossos sentidos se enganam pelo reflexo de uma luz há muito extinta.

Nós somos a mega estrutura das vias rápidas onde um aceno de cabeça se devanece na corrida louca contra um tempo imutável.

Nós somos a violência desta cidade, omnipresente no arame farpado, nas vedações electrificadas, na patrulha policial armada - 24 horas por dia.

Esta cidade não repousa quando o sol se põe permanece em perpétua vigilância. Esta cidade não rejubila quando a noite desvanece e se ouvem gritos abafados nos jardins de betão armado. Vida após vida adormece fumegante no solo, sem nenhuma dignidade, excepto um cartão de crédito, um telemóvel e uma identidade numérica.

metalorgânico



Poderosa ]de novo juntas]

Vigorosa [senti a tua falta. senti a falta destas lânguidas manhãs… brisa a levantar da bruma…  é o rio...[

Poderosa ]arribo agora uma barcaça exímia]

Vigorosa [sinto longa a viagem rio acima. sinto peso na sustentação. levitação… aqui…[

Poderosa ]esconde-me segredos quando a manuseio. detenho-me fascinada perante a outra cidade. margem…]

 Vigorosa [… na chegada. margem… cidade outra[

19.11.08

um pedaço de sons e palavras


com um agradecimento especial ao Vítor Rua


De um processo deixo-vos um pedaço enquanto ilustração do que foi para mim uma revelação. Um fim de semana uma peça musical de 44 minutos. DE OLHOS LÍMPIDOS A SUBSTÂNCIA.

provocações e libertações


Quando agora provoco tempestades eléctricas no teu cérebro, é para que amanhã saibas onde me encontro. Algures a meio caminho entre a redenção e a provocação. Algures para lá do infinito rochoso do meu peito. Algures, descoberto, nu, selvagem, numa ilha deserta onde o dia não morre e a noite é uma pálida imagem das minhas memórias.


18.11.08

das portas fechadas e da curiosidade enquanto objecto poético


ave de vento

ave de vento
vento de hoje
hoje de sempre
sempre de ti
ti de mim
mim de nós
nós de sonho
sonho de vida
vida de verme
verme de cansaço
cansaço de peso
peso de ar
ar de manhã
manhã de canto
canto de ave
ave de vento







'ontem em lisboa havia gaivotas no ar
as folhas carmim de certas àrvores rebolavam na calçada
levadas pelo vento
numa rua apertada perto da estrela
olhei ao acaso este painel numa parede
vi as aves de vento
à noite reli esta brincadeira de café
foi em maio de 1997
o tempo voa como a ave de vento'

da subtileza da diferença


Foto: Ziddini

17.11.08

carmim de outono

'há inexplicavelmente um tempo breve em que lisboa se enche do carmim das folhas de certas àrvores'

amor inocência


- Mãe, o amor é quando o coração bate muito muito muito?

- Sim, filha. Bate tanto que parece que o coração vai explodir em todas as direcções de tanta felicidade. Assim, mais ou menos, como quando a T. te dá as tuas guloseimas preferidas…

- Tão giro mãe! Deve ser tão bom, o amor…

16.11.08

de olhos límpidos a substância


Trabalho em progresso, um ritmo ao sabor do improviso, palavras unidas soltas pela fractalidade. O tempo e o espaço narrados. Uma estrutura mental consolidada.

Desta fragmentação ordenada e cautelosa nasce o que de olhos límpidos sempre esteve presente. Substância.

da vontade de abrir janelas e inspirar o ar da manhã enquanto objecto poético




15.11.08

um prelúdio para 'de olhos límpidos a substância'




Sonhos trespassam sonhos, abertos há infinita probabilidade de ocorrerem agora. Ser e estar confundem-se num infinitésimo de segundo, e ficam colados à pele para sempre.

os trilhos que traço em cada pele


os trilhos que traço em cada pele
que em ti encontro
os traços de pele que em cada encontro
em ti trilho

são os contornos dessa paisagem
imagem com odor e aragem

são a água fervendo
no suor das tuas costas
as tuas costas a terra por arar
e o ar
o que da respiração ofegante encontro
quando ao lume me dirijo
e no lume me retenho

aqui perdido no trilho do teu ser do teu sexo

14.11.08

da imprevisibilidade da lua


'ontem à noite antes de fechar a janela da sala olhei o céu e lá estava a lua imponente cheia
hoje de manhã depois de abrir a porta da rua estava ali a lua imponente cheia aos meus pés
hoje à noite antes de fechar a janela curioso olharei o céu '

esta é a minha linha curva indomável




Há um tempo exacto para trincar os lábios e saborear a cicuta. Cuspi-la de olhar petrificado como quem contempla a inevitabilidade. Cravar um pé bem firme à frente do outro e caminhar suavemente sem direcção.

da palavra em contramão

Respiro narcotizado com o universo sob controlo, obrigado a reagir na divergência da palavra que escuto com a palavra que afirmo. 

13.11.08

da existência dos líquenes à superfície das rochas enquanto objecto poético


da confusão em torno dos planetas marte e vénus


Fotografia de Marte propriedade da NASA/JPL-Caltech/University of Arizona/MSSS

12.11.08

hipercivilização IV


Quando as areias do tempo fustigam a vida e a erosão dos sentimentos se nota em cada passo e em cada gargalhada, permanece heróico aquele que ladrão do tempo, preserva a mania de chegar antes do tempo. Aquele que maneja o amor ao segundo, deixando libertar o olhar exausto no infinito para saborear uma lágrima e provar o doce sabor da ausência.

Esse amor dos defeitos, dos despojos e da esperança

Neste encontro de forças desmedido, levo a minha vida num estado dual entre dois tempos diferentes, como o dia e a noite, como drogado e lúcido. E as águas que não se juntam permanecendo teimosamente separadas. E este esforço de esticar a corda para que não se aparte consome a centelha de alma que ainda percorre dentro de mim. 

E com o passar dos segundos um estado de inacção ganha forma, impele-me à morte, impele-me à sorte de vagabundear de olhos vazios por paisagens magníficas, sem que um tremor sequer me transfigure por dentro.

do gesto poesia


Ghost on the Beach. Hisham Zabadani.

esmiúço o profundo 
não saindo 
da superfície   

corpo 
pede imersão libertadora de 
peso   

desmedida planta   

subaquática   

de fortes raízes 
no âmago 
na extremidade   

filamentos afloram 
libertos ganham tonalidades à incidente 
luz 
ilude a percepção 

travessia aventura espeleológica então
fala-me desses pensamentos profusos 

das redes viárias do povo da erva



Uma possível fotografia aérea do nó da Buraca da Segunda Circular em Lisboa, se fóssemos o povo das árvores.

11.11.08

de um tempo omnipresente

Continuação do post "da humanidade ausente" por Paulo Bernardino Ribeiro

Detalhe de Fotografia de Rita Garção

O Homem caminha em círculos preocupado em estancar o tempo como quem estanca o sangue da jugular aberta. Não tem motivos para ponderar o espaço intacto, para ele esse é o vazio. Na ausência há apenas o insucesso da mão que não trabalha e do pé dormente. O Homem é um tempo perdido num espaço consumido.  

metamorfoseio a perspectiva mantendo três compassos na partitura scarlatti.



unknown

sinto forte a espiral pressinto. perscruto detalhes para me assegurar do regresso galopante desconstruído. num flash-back em desfalecimento retorno ao melhor. incrédula, acima de tudo, julgo saber que disponho de 3 minutos. apenas mais.

congelo o microsegundo perpetuando-o em slow motion.

três compassos na partitura scarlatti. allegro.

esbanjo felicidade. ávida melancolia da alegria, riso aberto em eco. base a liberdade conquista solidez. 

microsegundo desintegrado converte-se em pausa de scarlatti para requiem.

três compassos na partitura scarlatti. andante.

prolonga-se. dois minutos. destruição massiva em auto-reprodução. sobram pedaços na reconstituição invertida. bate ténue o coração. sobre adjectivação. propaga-se arsenal de sobrevivência. ausência de expectativa síndrome de insensibilidade à dor.

rumo ao finale. libertação frenética sobre explosão de estímulos.

três compassos na partitura scarlatti. finale. metamorfoseio a perspectiva.

pareço regressar. microsegundo planando cósmico. oscilações frequentes, antípodas no peso, originando novas ordens caóticas.

liberdade. andante breu te purgo lágrimas. conquista. andante ignóbil te retorno sentidos. solidez. andante trágico te metamorfoseio em amor. riso aberto em eco. allegro finale.

congelo o microsegundo perpetuando-o em slow motion.

não será jamais


não será pelo caminho de ida que voltaremos
nem pela mão que nos trouxe que partiremos

somente o grilo à noite orvalhada
nos conhece a voz e o rosto

somente a terra nos conhece o corpo
o restolho o cheiro
o xisto-luzente os dedos
a cal seca as unhas
a azeda os lábios
e os dentes quando a trincamos
a seiva das ervas azeda
ao gustativo
entre as papilas o palatino e as gengivas
as minhas e as tuas

jamais em nós a velocidade das horas
mas o silente
o encantamento
e a preguiça

jamais em nós o ruído da turba
mas a quietação
a doçura
e o descanso

jamais em nós o quebranto da vida
mas a lufada
o fulgor
e a maravilha

atrás jamais voltar agora que partimos
mas pelos próprios pés

hipercivilização III


Caixa de cereais da marca Kaboom usada no filme "Kill Bill vol 1" de Quentin Tarantino

Toda a gente diz que agora é que é, velocidade supersónica nas trocas de saliva e o orgasmo magnífico depois da consumação. E a saudade que não vem porque podemos ouvir sempre a tua voz, ver o teu rosto, tocar o teu corpo, sempre igual em toda a parte.

Toda a gente diz que agora é que é, todos os homens e mulheres ocos, todas as coisas acessórias de que não necessitamos.

E os novos slogans do direito à indiferença assentam impecavelmente nas relações hermafroditas. E os novos heróis, figurinhas de plástico reciclado articulável, produtos empacotados em pacotes de Corn Flakes são fiéis à máxima de todos iguais sem sabor. E os tempos livres que são enfadonhos. E as idas ao hipermercado desportos radicais. E esta hipercivilização que avança ao sabor das quotas de mercado como um transplante cerebral encarquilhado pela propaganda da produtividade.

10.11.08

dos olhos do Chiado

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. :

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café no chiado fotografia de Paulo Bernardino Ribeiro
:
Porque é de luz e som que se trata. Porque é de pessoas que se alimenta. Subidas e descidas frenéticas. Que se congelam por instantes absorvendo padrões e texturas de uma nova estação.

Um croissant, os cafés ao fim da tarde, um aperitivo, as imperiais. Ponto de encontro consensual. Fio condutor entre gerações. Entre bairros e esquinas sobre o Tejo. Entre ruas. O alecrim e a rosa.

Quando ainda não se sabe para onde se segue. Só que se segue. Sente-se o efémero. E o reconforto sólido. Passado e futuro.
O coração pulsante da cidade e aqui a sua alma.

hipercivilização II


Assim se fizeram homens e mulheres, gerações perpétuas de ardores correspondidos e impérios incontáveis em perfeita harmonia. E a natureza seguia o seu curso, cada rio escoava até ao mar sem barreiras, cada religião corria o risco de se tornar banal na presença do amor, e cada nação prestava vassalagem à passagem dos arautos da beleza. Em tudo reinava uma presença angélica.

Mas eram apenas meros fogachos que perpassaram por entre um piscar de olhos e que fizemos por afogar brutalmente, como quem pressiona um corpo frémito dentro de água. Arrebatamentos fúteis na hora da decisão.

Este é o mundo das máquinas trituradoras, engenhos puros maquilhados residualmente antropomórficos, autómatos oleados que viram caducar a sua existência no contínuo avanço tecnológico.

E nesse ambiente de constante mutação, da obsolescência, nasceu uma nova ordem imposta pela androginia clonada da ambição humana e pelo frémito desmedido dos corpos em chamas que tudo queimam em redor deixando em cinzas o amor.

da humanidade ausente

há na terra um espaço por descobrir
um espaço sem trilhos
um espaço sem arquitectura
sem linguagem
sem mão que trabalha ou pé caminhando
pleno de ausência

há na terra um espaço ignoto ao homem
num tempo ubíquo




'esse espaço quase poderia ser o planalto de castro laboreiro numa manhã de primavera'

poesia urbana

Foto: Alexandre Mateus


liberto do peso morto das encostas, desafio gravidade vertical oblíqua. das gigantes rodas subterrâneas que se escondem escravas, faísca o cabo em translação. corre lento o tempo no soar cintilante da ascensão.    

emergem no êxtase da estética. murmúrios espantos suspiros. ei-los imponentes imutáveis magníficas máquinas do tempo. lavra bica glória santa justa. poéticos elevadores de Lisboa.

9.11.08

da linha da sorte e da linha da anca

l'oiseau frivole de nos destins

' do filme "pierrot le fou" de Godard'

hipercivilização

E de uma multidão anelante sobressaíram dois organismos livres que saboreavam um amor eterno, uma paixão desmedida, como bombardeamentos no médio oriente, meros fogachos na neblina da juventude, desajeitados sentimentos de agonia prenhe.

Apocalípticos, estes corpos ressacados na latência em que se deparavam. Encadeados pela luz auroreal procuravam incessantemente. Vagabundeavam pelos seios floridos cobertos de uma coroa de raios de sol, colhida na manhã primaveril, empunhando a alma ao desbarato, nos noticiários da vida a dois onde o torpor narcótico se intrometia como um flagelo a abater. 

Mas eram dias felizes, dias em que caminhavam por entre árvores no jardim das estrelas, de mãos dadas, semblantes risonhos e constantemente desnudos sob a passerelle de moda, como superstars anoréticos plenos de jovialidade vazia.

da realidade outro paradoxo



Tenho para mim que da seiva das árvores uma humanidade eléctrica se continuará a erguer.

7.11.08

da realidade outra interpretação

O trabalho era para ontem, os jornais lêem-se nas gordas, as televisões são cada vez maiores, sexo e amor são iguais. Os acontecimentos passam por nós como borrões disformes, como se vivêssemos em fast forward. Fast é a palavra anglo saxónica que mais impacto tem nas nossas vidas e nós nem damos por isso.

Chegou o momento de fazer pause de nos reorganizarmos, de rever os nossos actos e de entender as entrelinhas dos actos de quem nos rodeia. Chegou o momento de partilhar a magia da nossa vivência rotineira repleta de pequenos detalhes. Chegou a altura de respirar fundo e absorver todos os átomos de ar, um a um, como se todos fossem diferentes.

da necessidade de olhar o céu e conduzir em simultâneo enquanto objecto poético


'no meio do tejo entrando em lisboa fim de tarde de outono'

6.11.08

carrossel de sombras



Fotografia de Paulo Bernardino Ribeiro

Respira-se, como se fosse apenas um sonho selvagem, uma espiral desenrolada, uma subtileza desvendada, persistente. 

As inspirações ardem, erodindo a silhueta na tempestade de areia cerebral, fustigando sinapses, triturando cervicais e rasgando músculos, fazendo soçobrar os meus lábios nos teus lábios.

Neste carrossel de sombras não sei já quem sou e menos me importa ainda quem somos.

outono encarnado



Fotografia de Inês Costa publicada no blog http://ostelhados.blogspot.com/

Hoje um lampejo do outono encarnado entrou-me pelos olhos dentro em Lisboa. Para  o ano espero finalmente poder regojizar-me com essa imagem no seu esplendor máximo.

a compressão do tempo

Ouvi dizer que o tempo não é constante que a sua velocidade aumenta e que a noite e o dia coabitam em simultâneo nas nossas vidas e por isso não nos resta fôlego para reviver a estória dos nossos interlocutores.

5.11.08

da realidade hoje

"So let freedom ring from the prodigious hilltops of New Hampshire.
Let freedom ring from the mighty mountains of New York.
Let freedom ring from the heightening Alleghenies of Pennsylvania!
Let freedom ring from the snowcapped Rockies of Colorado!
Let freedom ring from the curvaceous slopes of California!
But not only that;
Let freedom ring from Stone Mountain of Georgia!
Let freedom ring from Lookout Mountain of Tennessee!
Let freedom ring from every hill and molehill of Mississippi.
From every mountainside, let freedom ring."

'Martin Luther King, Jr., 28 de agosto de 1963'

da televisão enquanto luz poética


da realidade esta

sim, podemos.

a extensão do mundo


Ouvi dizer que o mundo tem vindo a encolher, que as distâncias são cada vez mais curtas e que nos encontramos na extensão de um abraço. Ouvi dizer tudo isso, mas contínuo sem compreender porque não vemos mais para lá da superfície.

da televisão enquanto sombra poética


4.11.08

se ao menos sentisse que sinto o que sinto

Continuação do post "Analgesia" por Maria João Rodrigues

talvez penses não sentir o que sentes
talvez me peças lume como estranho que sou nesta rua
e talvez te olhe apenas e te estique a mão isqueiro e acenda o teu cigarro
ou talvez não
talvez lance uma única palavra afecto
e tu talvez te estiques para a apanhar
ou talvez não

se ao menos nos víssemos seres únicos que somos
talvez soubéssemos como comunicantes são um olhar ou uma palavra talhada para a ocasião
e talvez nos aninhássemos em torno desse momento e não mais o largássemos como alienados que ficaríamos
ou talvez a satisfação não se alcance
e por isso nos movemos de olhar em olhar e de palavra em palavra

então vem

Então vem, vamos voar como colibris sobre os campos de Kosovo num voo planante. Vamos desafiar as fronteiras e apertá-las junto ao peito e celebrar o nosso sonho nem que seja por um dia, nem que tenhamos de quebrar o pacto com os nossos filhos por nascer.
 
Lembra-te do momento em que nadámos através do estreito de Gibraltar e quando de mãos dadas demos braçadas fortes, por um punhado de areia. Ainda somos dois a pisar praias de esperança crestados pelo sal pelo sol pelo sul.

Vamos olhar as montras em Nova Iorque no Natal com a neve lá fora e os destroços enterrados na memória. Caminha comigo no deserto do Sahara, mostra-me o teu olhar desnudo dos véus com que tapaste a boca, o nariz, as bochechas, o teu olhar.

Deixa-me inspirar-te e expirar-te.

Sobre a nossa cabeça paira um céu azul, estamos aqui e o mundo começa a desbravar-se agora. Kosovo, China, África, Timor, Iraque, Irão, Europa, Índia, Estados Unidos, Venezuela e ainda tanto por desbravar, tantos sonhos por contemplar e tantas migrações por efectuar nas nossas fomes.

As sombras não nos atemorizam nem com a ajuda do vento, dos tornados e dos tsunamis. A nossa autodeterminação não acabará aqui, nem haverá muro que impeça o progresso da nossa caminhada. Seremos firmes, seremos alguém, nem que tenhamos de quebrar o pacto com os nossos filhos por nascer.

da luz enquanto objecto lunar


3.11.08

das (sur)realidades quotidianas


Jesper Waldersten

culturas multiplicam-se em casa de s. antagónicas. estranhos e dementes personagens aqui e ali devolvidos por seres singularmente cativantes. j. situo-o ali. situo-o depois num passado fugido da terra verde ainda desconhecida. situo-o também no presente passado de v. evoco v., desaparecido no combate vulgar da demência. surpreende v. emergindo. exerço os meus temidos poderes. evoco m., desaparecido no cansaço do combate quotidiano. irrompe m. janela factual aberta. salvo combatentes anónimos cruzando-os de vida.

podia ter sido

Podia ter sido o meu país. A racha do grand canyon coberta de escombros, o monte rushmore grafitado com cores berrantes e palavras obscenas e o fim dos hamburguers e das batatas fritas.

Podia ter sido o meu país mas foi o teu. Os budas caíram e lentamente desapareceram nas camadas de entulho provocadas pelas explosões, e de tanto cansaço já não se querem levantar. Os acampamentos que criam novas geografias sempre que uma nova guerra começa e se prolongam até onde a vista alcança. Os escombros das cidades que já não têm nome, onde cidadãos estropiados se passeiam em busca de um pedaço de comida. Os invernos rigorosos e as montanhas geladas que mantêm o estômago faminto e os teus pés frios o ano inteiro. Os abutres e os B'52 alimentando-se dos restos de civilização, provocando erupções magmáticas, raiva na escuridão perturbada, e as minas ainda activas, mas quietas à espera da sua oportunidade gloriosa.

Podia ter sido a minha cidade. O desaparecimento dos nomes e números das avenidas soterradas no pó, os automóveis tipo anos 40 e as lojas vazias de produtos de primeira necessidade e as árvores podres despidas com os ramos pendentes.

Podia ter sido a minha cidade mas foi a tua. Os corpos podres balançando ao sabor do vento norte em campos de futebol. Os cinemas fechados, onde a propaganda política deixou de existir. As lojas onde os bens de primeira necessidade são metralhadoras kalashnikov modelo russo em segunda mão. E os automóveis todos da mesma cor cinza poeira. As barbas mal escamoteadas em sinal de um protesto qualquer na única barbearia unisexo dessa cidade. A iluminação desligada e a noite invadida por rastos de fogo e por toda a parte espelhos quebrados.

Podia ter sido eu. Primeiro a execução e só depois o julgamento, o amor proibido na rua banhada de vento, o terror nos olhos ao virar da esquina. A cabeça decepada.

Podia ter sido eu mas foste tu. O olhar vago focado no céu, sem saber se a dádiva dos deuses prolonga o sofrimento ou oferece o descanso eterno. O amor proibido ao virar da esquina e o terror nos olhos velados, sempre todos os dias. A sexualidade decepada e os frágeis pés calcorreando caminhos de silvas.

Apenas a vergonhosa sensação de impotência, apenas a impotente sensação de vergonha.

Podia ter sido o meu país, mas acabou por ser o nosso amor.

analgesia


She Who Dares. Audrey-Kawasaki

se ao menos sentisse 
se ao menos não fosse imune aos afiados gumes que trespassam  
se ao menos aclarasse o céu pisando o manto de folhas caídas 
suavemente espraiando dedos nos intersticiais espaços de terra   

são galácticos alvos as coníferas antenas que me envolvem 
comunicando no profundo silêncio do quente toque de inverno   
julgando-se na perpetuação do momento 
boomerang feixe em movimento 
atinge-me em mil partículas de luz ofuscante 
penso sentir no vazio perdido do sentido da vida   

se ao menos quisesse eu salvar-me 
ser resgatada em voo do abismo em que me liberto sorrindo 
se ao menos não fossem carícias acutilantes chamas de vida  
que me levam de volta ao elo perdido  
se ao menos sentisse que sinto o que sinto

2.11.08

um poema como requiem

'talvez por ser outono, talvez por estar perto o fim de uma era no país das stars and stripes,
talvez por estar perto o início de uma nova era no meu mundo, lembrei-me deste poema que escrevi em setembro de 2001'


é no fim do verão que a cidade mostra a sua natureza

é no fim do verão que a cidade mostra a sua natureza
e são muitos os sonhos que nos vêm à cabeça
tanto que sonhamos nós na primavera com o calor do verão
homens, mulheres tanto que sonham as crianças
com sonhos que não passaram disso mesmo, sonhos

é agora o fim do verão
e lisboa ficou deserta de mulheres viajantes que em busca do sonho viajaram até lisboa

já não peço pardon
quando lhes tropeço para cima quase propositadamente

já não respondo prego
quando elas sorriem grazie no meu gesto cavalheiro de as deixar passar à frente
e assim olhá-las de trás

já não invento o alemão para deliberadamente oferecer os meus préstimos
àqueles cabelos cor de ouro da floresta negra
(afinal ela nada queria além de um bilhete de metro)

e é aí que me encontro agora
sentado sobre o azul e o vermelho
são estas as cores das cadeiras das carruagens do metro de lisboa
são também as cores das stars and stripes americanas

sim é agora o fim do verão
há nevoeiro e chuva miudinha
e todos os meus concidadãos choram os wild dreams of a new beginning
o encontro pouco fortuito de dois boeing com as duas torres do world trade center

tudo isto é fado…
basta vir o outono e somos todos poetas
uns sentimentais inveterados estes meus concidadãos
afinal portugal é terra de poetas
eu não sabia
mas é o que diz um tipo qualquer num documentário qualquer
dum canal qualquer sobre um portugal qualquer

foram muitos anos a chorar para dentro
resignados mas orgulhosamente sós
os quase cinquenta anos do tempo da outra senhora
e hoje no outono vem-nos à cabeça que sim portugal é um país em forma de caixão

e choramos mais um pouco que ninguém nota
e se notar não é assim tão grave

mas estou certo que é só por ser agora o fim do verão
e andamos todos um pouco deprimidos

o que vale é que por este outono estamos salvos
sim, porque a catástrofe alheia é o álibi perfeito para chorar as nossas próprias mágoas
e podemos chorar o monte de mortos na baixa de manhattan

que solidários que somos
eu e os meus concidadãos

então e tu
tens chorado muito?
não te tenho visto chorar…
não me digas que esses sonhos de verão foram mesmo uma realidade?
ou apoias o terrorismo…é isso?

sim…tu tens todo o ar de quem semeia o caos e a destruição
…como o vento semeia as papoilas…
e não foi assim há tanto tempo
ainda tenho as marcas da explosão do meu peito quando coitado morreu de amores por ti

e os danos colaterais desse massacre ainda hoje causam vitimas
muitos sonhos amputados
muitos campos minados os campos onde a erva crescia lentamente verde

os campos ou as estepes as planícies
os desertos do teu corpo
esse corpo
que é agora um espaço interdito ao meu
sinalizado pelas autoridades com fitas vermelhas

sim…

fitas vermelhas que é preciso ter cuidado contigo…
podes estar minada…
acho que vou ligar ao pentágono
não estejas tu a preparar outro atentado…